SETOR DE CULTURA - ÁGUAS MORNAS - CONHECER PARA AMAR

        Águas Mornas – conhecer para amar

        Quando os primeiros imigrantes chegaram para colonizar a região, viviam por aqui, os índios Xokleng, também conhecidos por botocudos. Essa alcunha (botocudos) lhes foi dada pelo fato de usarem “botoques”, peças de madeira que ornamentavam as orelhas e os lábios. Como viviam praticamente da caça, a chegada do homem branco foi um fator negativo para a sua sobrevivência, pois as derrubadas, efetuadas pelos colonizadores para o plantio de suas roças, espantavam os animais. Isso deixou os índios (ou bugres – como eram chamados na época), muito insatisfeitos. Foi a partir desses equívocos que começaram os atritos entre as duas culturas. E para fazer a limpeza étnica desses selvícolas, os colonizadores resolveram contratar caçadores de índios, os chamados bugreiros. E assim surgiram nomes como Henrique Vandresen, Ireno Pinheiro e Martim Bugreiro, entre outros. Este último atuava mais na região onde hoje está localizado o Município de Águas Mornas. Na ânsia de levar a termo sua “profissão”, os bugreiros matavam sem exceções: crianças, mulheres e velhos, todos eram massacrados, deixando um rastro de sangue por onde passavam.

        Outro episódio de triste recordação na história do nosso Município foi o combate na Serra da Garganta, ocorrido durante a Revolução de 1930, entre  revolucionários que apoiavam o gaúcho Getúlio Vargas, e tropas do governo que tinham o propósito de fazer valer o resultado das eleições para presidente, que dera a vitória ao paulista Júlio Prestes. Getúlio Vargas venceu a Revolução, Washington Luís foi deposto e os mortos (sete mortos e quatorze desaparecidos) na Serra da Garganta foram enterrados numa vala comum e, até hoje, permanecem esquecidos no meio da mata fechada.

        Na emancipação do Município de Águas Mornas, duas datas acabam confundindo a cabeça de muita gente. Dezenove e vinte e nove de dezembro de 1961. Qual delas é a verdadeira data de sua emancipação? Legalmente, é o dia 29 de dezembro, que é a data de sua instalação, e também dia em que foi empossado, como prefeito provisório, José Higino Martins. Aqui surge outra pegadinha que deixa muita gente na dúvida: qual foi, de fato, o primeiro prefeito de Águas Mornas? José Higino Martins, nomeado pelo então governador de Santa Catarina, Celso Ramos, ou Paul Esser, primeiro prefeito eleito pelo voto direto em outubro de 1962?  Vale lembrar que durante o Regime Militar, que governou o Brasil de 1964 a 1985, vigorava uma lei que permitia que governadores e prefeitos de capitais e de municípios considerados áreas de segurança nacional e estâncias hidrominerais, fossem nomeados pelo Poder Executivo (Governo Federal) após ratificação da Assembléia Legislativa, para os chamados cargos “biônicos”. Santa Catarina, por exemplo, teve quatro governadores “biônicos”, eleitos indiretamente; foram eles: Ivo Silveira, Colombo Sales, Carlos Konder Reis e Jorge Bornhausen. Se seus nomes constam em qualquer lista de governadores do nosso Estado, então José Higino Martins, foi sim, o primeiro prefeito de Águas Mornas. Mas, as dúvidas e as curiosidades não param por aí. Outro fato interessante diz respeito ao intervalo que vai do dia 19 até 29 de dezembro do ano de sua emancipação. A palavra emancipação diz respeito ao estado de quem se torna independente, liberto, alforriado. Se Águas Mornas adquiriu sua independência no dia 19, quem respondia pelos atos praticados ou pelas necessidades de seus munícipes nesses dez dias em que o município ficou, digamos, à deriva?

        Outro fato inédito aconteceu nas eleições de 1968. Nesse pleito eleitoral, quatro candidatos disputaram o cargo de prefeito. Pelo MDB – Movimento Democrático Brasileiro – concorreram os seguintes candidatos: Ivo Zimmermann, obtendo 184 votos; Wilibaldo Kirchner, com 105 votos e Jaime Paulo Probst, conquistando 78 votos; pela Arena – Aliança Renovadora Nacional – concorreu  Balduino Weber, que acabou se elegendo prefeito com 1287 votos, tendo como vice-prefeito Germano José Steinbach. Outra curiosidade aconteceu nas eleições de 1972, quando apenas um partido, a Arena, resolveu lançar candidatos a prefeito; a saber, Ivo Leopoldo Lehmkuhl, que tinha como companheiro de chapa Odir Pedro Lehmkuhl e Germano José Steinbach e Nelson Müller, como vice, que acabaram sendo eleitos com 1062 votos. 

        Apesar de passar praticamente um ano e dois meses na condição de prefeito, José Higino Martins não promulgou nenhuma lei municipal, até porque o Poder Legislativo ainda não havia sido constituído. Portanto, a primeira lei só veio a ser sancionada pelo prefeito seguinte, Paul Esser, no dia 1º de fevereiro de 1963. Essa lei transferia a prefeitura da residência de José Adão Lehmkuhl, o grande incentivador da emancipação de Águas Mornas, que na época era Presidente da Câmara de Vereadores de Santo Amaro da Imperatriz, para um prédio recém-construído na propriedade de seu irmão, porém um acirrado adversário político, Evaldo Carlos Lehmkuhl, sogro do então prefeito Paul Esser. Se José Higino Martins não podia contar com o Poder Legislativo para ajudar a tomar suas decisões, Paul Esser não podia se valer do vice-prefeito que na época também não existia. Somente na eleição seguinte, a de 1968, é que os partidos puderam, então, lançar candidatos a vice-prefeito.  

        Em se tratando de leis, vale lembrar que até 1980, as ruas do nosso Município ainda não eram denominadas. Isso só veio acontecer com a Lei Municipal de Nº 170/80, promulgada pelo então prefeito Mário José Koerich. Outra lei importante foi a de Nº 36, sancionada pelo prefeito Paul Esser, que criava o perímetro urbano da cidade, datada de dezembro de 1966. Foi dele, também, a iniciativa de pavimentar, com paralelepípedos, a então Rua Geral de Águas Mornas, hoje Avenida Coronel Antônio Lehmkuhl.

        Embora Águas Mornas não tenha progredido de forma efetiva desde a sua emancipação, podemos nos orgulhar por termos alcançado um excelente IDH – Índice de Desenvolvimento Humano(0,783 – dados de 2000). Se não possuímos grandes indústrias que possam oferecer uma boa demanda de empregos e uma excelente arrecadação de impostos, por outro lado não precisamos carregar fardos sociais pesados como pobreza extrema e violência exagerada.

        Faltam menos de dois anos para comemorarmos meio século de emancipação e o desenvolvimento atingido ainda não corresponde a isso. Só para termos uma idéia, na década de 1970 tínhamos uma população de 4.675 habitantes e, em 2007, havia caído para 4.410. Esse entrave ao desenvolvimento pode ser atribuído a vários fatores: geografia muito acidentada, comunidades isoladas, e inúmeros mananciais de água que, hoje em dia, são excessivamente protegidos por leis ambientais. Se isso atrasou a chegada do progresso, por outro lado conseguimos preservar a natureza, algo que certamente vai valer muito no futuro. Parabéns Águas Mornas por seus 48 anos de emancipação político-administrativa!

Luiz Silva – poeta e Diretor Cultural de Águas Mornas.